Sempre que pensamos no nascimento de um bebê, pensamos em renovação, em família e felicidade extrema. Esses momentos muitas vezes são idealizados, refletindo em uma alta exigência social para com a figura materna, e, consequentemente uma auto-cobrança das mães, que buscam ser perfeitas e sentem-se muitas vezes mal em admitir que têm medo, frustração ou qualquer outro “sintoma” que foge da expectativa de realização plena. Mas e quando esses sentimentos, na fase do puerpério, são ainda mais intensos e condizentes com a depressão, como admiti-los para si e ainda mais para a sociedade?

Depressão pós-parto: as mães precisam de apoio e tratamento, não julgamento

A depressão por si só já é um âmbito que ainda causa muita desconfiança. Muitas vezes, não é aceita como uma doença e ainda existe uma série de vocabulários erroneamente atribuídos a essa condição que dificultam o combate à doença e ainda pulverizam e ampliam o preconceito em torno dela. Se depressão em si já não é de fácil aceitação, quem dirá a depressão pós-parto. A sociedade exige que a mulher que acabou de ser mãe esteja vivendo a felicidade ideal, seu momento de transcendência. Mas e quando isso não acontece?

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a depressão pós-parto atinge cerca de 25% das mães. O número de nascimentos em 2017 foi de 2,9 milhões, de acordo com dados do IBGE. Assim, podemos concluir que hoje temos aproximadamente 740 mil mulheres que passaram ou passam pela depressão pós-parto. Por isso, é muito importante desmistificar essa condição, para que essas mães recebam tratamento e apoio ao invés de julgamento.

Entendendo melhor a depressão pós-parto

Para entendermos um pouco melhor o que é a depressão pós-parto, conversamos com a Dra. Claudia Cristina Veynoglou Kosmiskas, Ginecologista e Obstetra, CRM 82534-SP. Confira este bate-papo e entenda melhor como a depressão pode atingir as recém-mães e as melhores maneiras de lidar e ajudar uma mulher que esteja passando por isso.

Quais são os principais sintomas da depressão pós-parto?

Dra. Cláudia – Os principais sintomas de depressão pós-parto são melancolia intensa, desmotivação profunda diante da vida, desespero constante, distúrbios do sono, ansiedade, irritabilidade, preocupação excessiva em relação às necessidades do bebê, cansaço extremo, distúrbios alimentares, pensamentos suicidas, vontade súbita de causar algum dano ao bebê.

Existe algum agravante que possa desencadear a doença?

Dra. Cláudia – Sabemos que as alterações hormonais no período do puerpério estão diretamente relacionadas com a patogenia da doença. Como fatores de risco podemos citar história prévia de transtornos de ansiedade e depressão, histórico familiar de depressão, depressão e ansiedade não tratados durante a gestação, baixo nível socioeconômico, problemas familiares/conjugais, eventos traumáticos durante a vida como abuso e violência doméstica.

A depressão pós-parto, apesar do nome, pode se iniciar no final da gravidez ou durante a gravidez, ou apenas após o parto?

Dra. Cláudia – A depressão pós-parto é considerada um espectro de transtornos depressivos e ansiosos que surgem no período perinatal, ou seja, envolvendo a gestação até um ano após o parto, apresentando piora do quadro de quatro a oito semanas pós-parto. Esse conceito é fundamental para formularmos estratégias de prevenção e intervenção precoce.   

Existe diferença entre depressão e depressão pós-parto?

Dra. Cláudia – Segundo o DSM-5 (Classificação norte-americana de doenças mentais), a depressão pós-parto é um subtipo da depressão maior, ou seja, é uma depressão que acontece num período específico e apresenta alguns sintomas diretamente relacionados ao puerpério.            

Como Ginecologista e Obstetra, sob quais suspeitas ou sintomas, você aconselha sua paciente a procurar um tratamento psiquiátrico?

Dra. Cláudia – Temos que pensar na necessidade de encaminhar nossa paciente para tratamento psiquiátrico principalmente quando percebemos que a mesma não apresenta condições de tratar de si mesma e do seu bebê, mesmo com um bom suporte familiar e psicoterápico; e nos casos graves que exijam tratamento urgente. O vínculo médico-paciente estabelecido durante o pré-natal e o puerpério é fundamental nesse processo.

Você acredita, com base na sua experiência, que existe uma dificuldade maior da paciente e seus familiares próximos em aceitar a doença, dada as mudanças de vida trazidas pelo recém-nascido?

Dra. Cláudia – Com certeza existe essa dificuldade. Envolve uma gama enorme de sentimentos como culpa, fracasso e muito preconceito. O diagnóstico é difícil. Não podemos esquecer que existe um quadro natural de melancolia nos primeiros dias pós-parto que, geralmente, melhora em até duas semanas.

Quais os tratamentos para a depressão pós-parto?

Dra. Cláudia – O tratamento depende da gravidade da doença. Os casos leves podem ser resolvidos com suporte psicossocial, família, orientações médicas básicas . Os casos moderados necessitam de tratamento psicoterápico. Os antidepressivos são recomendados nos casos moderados em que a paciente não queira ou não tenha possibilidade de se submeter a tratamento psicoterápico. Nos casos graves, há urgência em estabilizar a paciente para diminuir os riscos em relação a si própria e ao bebê, sendo indicado acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico. Os antidepressivos são fundamentais nesses casos. É importante frisar que atualmente temos vários estudos mostrando a segurança de alguns antidepressivos em relação à amamentação, portanto ela só deve ser suspensa nos casos em que seja um fator de agravo dos sintomas da paciente. A medicação deve ser mantida por seis a doze meses para diminuir as chances de recidiva da doença. Como tratamentos coadjuvantes podemos citar acupuntura, massoterapia, técnicas de meditação, atividade física, etc.

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.