Existe lugar de criança?

Imagine a seguinte situação: você decide ir a um restaurante com um amigo que não vê há um tempão. É sábado e vocês só querem relaxar, colocar o papo em dia e se divertir. O ambiente é legal, descolado, arejado e com uma música leve ao fundo. Tudo está perfeito. De repente entra uma família no restaurante. Pai, mãe e dois filhos pequenos. Em pouco tempo um deles começa a reclamar que não quer comer. O outro está brincando, falando e rindo alto. Em algum momento um deles começa a chorar. A mãe tenta acalmá-lo, mas nada resolve. Pior, o choro se torna uma crise de birra. Passa um bom tempo até que a criança se acalme e volte a comer tranquilamente. O que você sente ao imaginar essa cena? Com certeza, se você é mãe ou pai, sente algo diferente de alguém que ainda não esteja se aventurando pela parentalidade. Mas a verdade é que tendo filhos ou não, provavelmente você já passou ou presenciou uma situação como essa e, de alguma forma, sentiu algum incômodo. Afinal, por que será que nos incomodamos tanto com crianças sendo crianças? Será que existe lugar de criança?

Cultura adultocêntrica: por que esquecemos que já fomos crianças?

Você pode até não se lembrar, mas a verdade é que todos nós já fomos crianças um dia. Já fizemos birra, fizemos bagunça, fizemos barulho, nos entediamos, nos aborrecemos, tivemos medo, brigamos com irmãos e primos… Tudo igualzinho às crianças que vemos hoje em dia. Mas, por algum motivo, é fácil nos esquecermos disso depois de alcançarmos o tão importante estágio da vida adulta. Quando nos tornamos “gente grande”, de uma hora para a outra, já não vemos mais tanta graça nas coisas, não temos paciência, nos irritamos com qualquer barulho e esquecemos de ter empatia com aqueles pequeninos que acabaram de chegar por aqui e estão descobrindo e aprendendo, através do exemplo e da curiosidade, sobre este mundo tão novo.

A isso podemos dar o nome de adultocentrismo, “uma prática social que estabelece o poder aos adultos, deixando jovens e crianças com menos liberdade”. Ou seja, é quando determinamos socialmente que as crianças têm menos direitos, menos conhecimento e menos espaço do que nós, adultos. Existe, inclusive, um movimento chamado Childfree, que proíbe a presença dos pequenos em determinados locais, como hotéis e restaurantes, em prol do bem-estar e da paz dos frequentadores.

Mas será que as crianças realmente atrapalham tanto assim a calma dos adultos? Ou será que elas estão apenas sendo crianças? Será que esquecemos tanto assim como é ser criança? Ou melhor, será que esquecemos que elas são tão parte da sociedade quanto nós? E mais: que são elas o futuro da nossa sociedade?

A diversidade precisa incluir as crianças também!

Lugar de criança é na escola somente? Não. Lugar de criança é nas ruas, ocupando a cidade, nas praças, nos parques, no cinema, nos restaurantes, no camping, nas feiras, nos festivais, no carnaval, nas praias, nos museus, nas livrarias, nas bibliotecas… Enfim, lugar de criança é em todo lugar. Pois se as crianças não estão nos espaços há algo de errado. Elas existem e precisam, tanto quanto nós, viver socialmente, conhecer o mundo e aprender como se relacionar com os outros. E só se aprende a viver socialmente, vivendo socialmente, não é? Em tempos de tanta correria, tanto egoísmo, tanta falta de tempo e tantos muros, precisamos nos esforçar um pouquinho para lembrar que também já fomos crianças um dia e que agora precisamos ter empatia e muito amor para guiá-las por esse mundo, tantas vezes, louco. Afinal, toda a sociedade é responsável por nossos pequenos e para a construção de um lugar mais amigável para todos nós, crianças e adultos!

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Jornalista e autora no Blog da Leiturinha, é fascinada por tudo que envolve o mundo da leitura, da educação e da infância. Acredita que as palavras aproximam pessoas, libertam a imaginação e modificam realidades. Gosta de escrever, viajar e aprender sempre.