Em tempos em que ser multitarefa e conseguir dar conta de tudo ao mesmo tempo são qualidades tão valorizadas, como ensinar e aprender a esperar? E mais do que isso, como ensinar paciência aos nossos pequenos e pequenas? 

O que é ser multitarefa? 

Multitarefa é uma palavra que se originou da informática, mais especificamente das máquinas que conseguem dar vazão a várias atividades com alto grau de qualidade e performance simultaneamente. Essa qualidade começou a ser idolatrada e almejada no campo profissional e inclusive familiar, afinal, mulheres, mães, esposas e profissionais, estão abrindo mão da própria sanidade para darem conta de tudo. Será que esse ritmo é realmente a melhor das tendências?

Afinal, com essa rotina corrida, é muito comum vermos pessoas usando o celular enquanto assistem a uma série, cozinhando enquanto respondem mensagens, executando milhares de tarefas ao mesmo tempo, comendo e vendo algo no computador e levando seus amados celulares até para o banheiro! Enfim, usando o tal conceito de multitarefa a ferro e fogo. 

Como a rotina cheia e corrida pode ser prejudicial? 

Segundo a neurociência, esse hábito traz mais prejuízos do que ganhos, pois o cérebro humano tem um limite de foco para ser produtivo, isso devido a mecanismos ligados à atenção e concentração. Quando realizamos tarefas múltiplas, entramos em um looping executor, e não propriamente produtivo. Ou seja, sem a priorização, pode ser que realizemos diferentes coisas, mas dificilmente em alta qualidade. 

Com essa rotina lotada de atividades, a mensagem que passamos para o nosso cérebro, é de que não podemos, de forma alguma, ficar “sem nada para fazer”. Oras, com tanta coisa para fazer, como posso me dar ao luxo de ficar sem fazer nada? E pior, ainda, será que eu consigo ficar “sem fazer nada”? Não à toa, vemos crises de amigos que passaram um dia sem internet ou o final de semana sem o celular, cruzes, impossível. 

A intolerância ao “tédio”

A realidade, é que precisamos desligar, priorizar, e sim, aprender a lidar com o tédio. Muitos conhecem o conceito de ócio, que era a atividade considerada digna por pensadores como Aristóteles. O ócio se contrapunha ao executivo (que ironia), que era considerado a atividade de menor prestígio, do homem executor, enquanto o ócio era o espaço para os homens desenvolverem o trabalho intelectual, essencial para as ideias e pensamentos ligados à sociedade. Ou seja, sem o ócio só existe executar, sem planejamento, sem saúde

Por isso, aprender a lidar com tédio é muito importante, aprender a priorizar e voltar a ser monotarefa talvez não seja algo tão ruim para a produtividade eficiente. Aprender a se concentrar e desenvolver a capacidade de atenção é vital para a reflexão e a criatividade, e ouso dizer, a felicidade. Afinal é comum vermos e até ouvirmos pessoas dizendo que realizam milhares de tarefas ininterruptamente para não terem tempo de pensar. Interessante perceber como, mesmo que de forma inconsciente, nós sabemos que precisamos de tempo à toa, para refletirmos sobre as nossas questões.

E as crianças?

Se nós, que fomos criados em uma velocidade menor do que nossos filhos, estamos com problemas com o tédio, então, imagine nossas crianças. Como estamos criando nossos filhos? O psicólogo Skinner defende que o comportamento é aprendido e então reproduzido. Imagine a criança que não consegue esperar uma viagem de carro, sem o entretenimento do tablet. Que não consegue esperar a comida ficar pronta sem “algo para fazer”, e não consegue sequer brincar sozinha, sem o olhar dos pais. Quais valores essa criança está internalizando? Será que estes pequenos vão entender que “nada para fazer é inadmissível”, “Que ficar sem entretenimento é sinônimo de negligência”, “Que ela só pertence quando é o centro das atenções”. 

Ensinar as crianças que nem tudo será no tempo delas é uma das coisas mais poderosas que podemos cultivar em um indivíduo. Nem todos serão protagonistas da vida dela, ela tem que aprender a lidar com frustração, com o tédio, com sentimentos negativos, pois só assim, ela terá espaço para aprender os sentimentos opostos, como o amor, a criatividade, a ludicidade e o agradecimento. Um não é tão valorizado sem o contraponto.

Por isso, um brinde ao tédio e à monotarefa bem executada!

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.