Quem já passou pela situação de ter um cano estourado na sua casa, uma entrevista para o primeiro emprego, por um perrengue em um relacionamento amoroso, ou até mesmo pela declaração do Imposto de Renda, deve ter pensado algo como “Nossa, não sei fazer isso”. E esse pensamento nada tem a ver com a síndrome de burnout ou um sintoma de incapacidade nato. Muito pelo contrário, essa é uma indagação comum e completamente válida, uma vez que, muito provavelmente, ninguém te ensinou antecipadamente tais habilidades de vida. É o tal “vive aí, que a vida te ensina”. Mas será que as coisas são divididas entre o que pode ser ensinado e o que não pode? Será que existe uma forma de se preparar para essas situações, para não ser pego de surpresa? Em que momento devemos ensinar aos nossos pequenos habilidades que todo adulto precisa saber? Isso cabe à escola ou à família? 

As escolas nos ensinam a ser adultos? 

Provavelmente você já ouviu aquela famosa frase: o que não aprendemos na escola, a vida ensina. Mas será que estamos, de fato, olhando para as habilidades certas a serem ensinadas? Ou será que ao excluir uma série de outras habilidades de vida igualmente importantes, não estamos limitando o aprendizado? 

De fato, a escola brasileira hoje já tem uma proposta diferente, por conta de diversos planos e leis voltadas à educação. Como, por exemplo, o documento normativo da Base Nacional Comum Curricular, voltado para as habilidades socioemocionais juntamente com os conceitos de campos de conhecimento. No entanto, trocar uma lâmpada, conseguir lidar com o estresse extremo, cozinhar uma refeição saudável e gerenciar as finanças ainda não são, majoritariamente, contempladas e sequer previstas para o ambiente escolar.

Uma vez que, segundo dados da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), 65% das crianças terão empregos que ainda não existem, será que o currículo brasileiro está preparando as crianças para esse cenário? Ou, um passo anterior, para existirem e sobreviverem às demandas da vida? Posto que as habilidades de vida estão intimamente ligadas a sentimentos de satisfação, leveza e planejamento dos futuros adultos, é essencial que tenhamos um olhar atento à forma de ensino-aprendizagem ligada a elas.

Então, mãos na massa! 

Por esse motivo, é importante que os pais, juntamente com a escola, incentivem seus filhos a participar das atividades da vida, pois ao fazê-las os benefícios são inegáveis. Quanto maiores e melhores as relações que a criança fizer entre os conceitos dos campos de conhecimento e a prática, mais conexões voltadas à resolução de problema a criança terá. 

Resolução de problema é a habilidade-chave para quaisquer profissões que apareçam futuramente. Pois praticamente todas as atividades exigem essa habilidade em algum nível. 

Andrea Moore, professora americana, implementou uma matéria inovadora para alunos entre sete e doze anos, a disciplina chama-se “Família, Ciências do Consumo e Saúde”. Tal disciplina aborda temas desde a alimentação e o desenvolvimento humano até a química e como utilizá-la para limpar a casa e preparar uma refeição saudável. Em seu podcast, Andrea conta que já ensinou um aluno a quebrar um ovo. Engraçado pensar que perante o cotidiano, não adianta saber tudo sobre história se você não conseguir quebrar um ovo!

Esse pensamento, de certa forma, reflete o que Dr. Peter Hirst, executivo de Educação do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) defende: que alunos precisam de habilidades técnicas, mas também precisam conhecer e ler Shakespeare, pois existe uma confluência entre autoconhecimento e habilidades cognitivas.  Maravilhoso isso! O humano é um todo, é a integração entre se entender, entender o outro e entender o mundo, de forma dialética

Assim, é vital que seu filho esteja envolvido, em algum nível, em experiências como arrumar a casa, cozinha, fazer mercado, lidar com dinheiro, consertar as coisas, organizar os espaços, entender um basicão de política, pobreza, sociedade, impostos e constituição. Para conseguir arquitetar ideias que transitam entre as diferentes vivências. Afinal, no fim das contas, essa articulação e conexão é fundamental para a construção do pensamento crítico e, consequentemente, para a plenitude humana.

E aí na sua casa? Você ensina as habilidades de vida básicas para o seu pequeno? Conte aqui para a gente!

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.