Rafael nunca havia ficado longe dos pais por muito tempo. Eu ou meu marido estávamos sempre por perto. Quando retornei ao trabalho após a licença maternidade, contratei uma babá que ficou com ele, mas ainda assim, meu marido ficava quase sempre por perto. Essa foi a nossa rotina até que ele fizesse dois anos de idade, quando decidimos colocá-lo na escola.

Não participei da adaptação escolar, porque entendi que iria mais atrapalhar do que contribuir. Quem fez a adaptação foi a babá. Isso porque Rafael é uma criança completamente diferente quando esta longe dos pais. Os comentários que mais escutei foram: “mãe é manha”, “olha, quando você não está ele é outra criança”. Hoje, depois que passei a estudar mais sobre comportamento das crianças entendo o porquê dessa diferença.

Por que os pequenos ficam diferentes quando estão longe dos pais?

Julie Lythcott-Haims, em seu livro “Como Criar um Adulto”, nos diz que “nós nos achamos capazes de garantir que nenhuma criança jamais se machucará. Nós acreditamos em nossa capacidade de ter controle. Para conseguir isso, tornamos o mundo muito mais seguro, previsível e benévolo para as crianças.”. Julie nos traz o conceito de “pais helicópteros”, ou seja, aqueles pais que estão sempre sobrevoando os filhos tentando evitar que se machuquem ou enfrentem as frustrações da vida.  E por que fazemos isso? De certa forma, temos tanto amor por eles que fazemos o possível e o impossível para que não sofram ou não tenham sucesso na vida. Só que nosso “controle” sobre o que acontece com suas vidas e escolhas enfrentam a vida real. É nesse momento que os filhos ficam diferentes quando estamos longe.

Quando Rafael foi para escola, descobri que ele comia sozinho, se defendia dos amigos que batiam nele e até mesmo falava com outras pessoas sem dizer que estava tímido. Quando vai para casa dos meus pais e passa o final de semana, se mostra mais independente e resolvido em suas escolhas.  Então comecei a observar o que acontecia em casa que fazia com que ele tivesse um comportamento mais dependente, ou seja, com menos autonomia. Sabem o que descobri? Que quem agia desse jeito era eu. Rafael estava apenas refletindo a imagem de um espelho.

Será que você está fazendo mais pelo seu filho do que ele precisa?

Isso é o que as crianças fazem – observam e refletem a imagem de espelhos. Do espelho da escola, da casa do amigo, da casa dos avós, da sua casa. Se nós pais agimos de forma a não incentivar a autonomia da criança, ela irá refletir esse comportamento. Por isso, observe seu filho. De que forma o comportamento dele muda quando você não está perto? Se você percebe que a mudança está ligada a questões de autonomia (comer sozinho, arrumar sua cama, quarto, mochila, tomar banho – observando sempre a idade da criança e as habilidades desenvolvidas), pode ser que você esteja fazendo mais pelo seu filho do que ele precisa. Por mais difícil que seja (e muitas vezes é) encoraje seu filho a realizar as atividades ao invés de fazer por ele. Mostre a ele que você acredita nele e que, se errar, está tudo bem, é só tentar de novo. O maior medo das crianças e adolescentes é não serem amadas pelos pais. Por isso, muitas vezes, algumas crianças desistem de tentar realizar algo na frente dos pais, pelo simples medo de não conseguir e acreditar que o pai ou a mãe deixarão de amá-la por isso.

Pais, avós, professores nunca agirão da mesma forma. Naturalmente, as crianças e adolescentes apresentarão comportamentos distintos quando estiverem em ambientes diferentes com pessoas diferentes. E está tudo bem, se seu filho se sentir amado e acolhido perto de você!

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Profile photo of Gabriela Braun

Mãe do Rafael, coach especialista em conexão entre pais e filhos, educadora parental e apaixonada por escrever e pelos desafios e mudanças que a maternidade nos traz.