O ano é 2020 e um vírus até então desconhecido se espalha pelo mundo de forma assustadora. Acabamos por experienciar o isolamento social como forma de frear o contágio.  O mês de hoje: maio. Ele é conhecido como o mês das mães. Porém,  este maio tem uma peculiaridade: as recém-nascidas mães estão mais solitárias do que nunca. É a solidão materna refletida pela quarentena. 

Nos sentimos apenas uma ponte…

As campanhas comerciais na televisão refletem mais do mesmo. Aclamadas como guerreiras, heroínas, resilientes, portadoras de um amor singular, santas, nós mães de bebês suspiramos em meio a mamadas, fraldas, cochilos e choros. A mulher com sua cria nos braços deixou de ser o centro das atenções. A barriga que abrigava uma vida agora toma forma indefinida e os olhares se voltam todos para a criança. Nos sentimos como um meio, uma ponte que entrega um ser humano ao mundo, não encontrando o início e o fim de nós mesmas em meio ao caos do pós-parto. Não, não vou romantizar o puerpério. É preciso falar sobre a solidão materna, tão camuflada quanto marcante, tão disfarçada quanto dolorosa, tão mal vista quanto potencializada no contexto atual: estamos em pandemia.

Sentimos mais ainda a falta de uma rede de apoio

A mulher urbana, ocidental e contemporânea costuma sofrer com a falta de uma rede de apoio. Ela é necessário pois este é um momento de mais extrema vulnerabilidade física e emocional da sua vida e extravasa sobrecarga, esgotamento e solidão. O pós-parto exige que estejamos inteiras para o bebê pois somos sua única necessidade. Em tese, se a mãe estiver bem, o bebê também estará. A licença paternidade no Brasil com seus irrisórios 5 dias (ainda raramente extensíveis a 20) impede que os cuidados dos primeiros meses sejam realmente compartilhados entre mães e pais. A falta de apoio familiar presencial coloca a mulher frente ao desafio de lidar com uma vida integralmente dependente da sua. 

As circunstâncias – e não a maternidade em si, faz com que mulheres que acabaram de se tornar mães se sintam exaustas com as demandas da rotina impostas e aliadas à ausência de suporte. Isso tudo fora do contexto de pandemia e isolamento social em que estamos vivendo. Agora podemos acrescentar à exaustão já preexistente a inquestionável necessidade de reclusão para proteção, nossa e dos nossos. É passada a hora de parar de fingir que está tudo maravilhoso. Temos realmente que dar conta de tudo? Não seria melhor elucidar a perversão das condições inadequadas que a nossa sociedade deposita nas costas das mulheres mães?

Que mundo é esse a qual eu não pertenço?

Quando citamos o antigo provérbio africano que diz que é necessária uma aldeia para educar uma criança, estamos falando de redes. Devido às condições da atualidade  temos um cenário não muito animador para as mulheres mães e seus filhos: sim, estamos sozinhas. As mensagens que nos chegam através da publicidade sobre a maternidade recém-iniciada são irreais e adocicadas. Mulheres plenas, bebês que mamam sem dificuldades, casas organizadas, corpo em ordem, sono em dia. Acabamos nos perguntando “que mundo é esse ao qual não pertenço?”. Junto com essa pergunta, vem a culpa, esse patrimônio quase exclusivo das mães. 

Há alguns anos a foto de uma mulher com seu bebê de três dias no colo dividiu as redes sociais. Ela estava visivelmente infeliz. Seu rosto denunciava o cansaço. Os cabelos, desalinhados. A roupa, desgrenhada. Era o retrato da realidade. A polêmica girou em torno de comentários como “ok, ficamos cansadas, mas não precisamos escancarar isso” e “filhos são bênçãos, como pode não estar feliz?”. Algumas poucas mensagens de apoio e empatia. É urgente a necessidade de desconstrução desse maternar idílico. Sofremos todos os dias com tanta idealização. A maternidade é bonita, mas também é extremamente difícil. E sim, estou falando de so-li-dão.

Em 2020, as mudanças foram bem abruptas!

A gestante que virou o ano desejando que a chegada de seu filho fosse tranquila e respeitosa precisou recalcular a rota. Principalmente em fevereiro, quando os olhares do mundo já se voltavam para os países da Ásia e Europa. E com isso, a ameaça de uma epidemia global se aproximava. Uma síndrome respiratória grave, diziam os especialistas. Uma gripezinha, distorciam uns e outros. O fato é que a pandemia do COVID-19 nos obrigou a refazer os caminhos.

Hoje vemos mulheres parindo sozinhas na maioria dos hospitais e maternidades do país. Pois, acompanhantes não têm sido permitidos para entrada e acompanhamento dos trabalhos de parto. Apesar da legislação em vigor (a lei do acompanhante é de 2005) e a despeito das medidas de proteção que podem ser adotadas. Quando muito, são bem-vindos no momento do nascimento, apenas. 

O puerpério é iniciado com a marca do desamparo emocional…

Em casa, nada de visitas. O que pode ser visto com bons olhos por algumas mulheres devido à redução das interferências externas sobre os cuidados com o bebê acaba por, em pouco tempo, resultar em sensações como tristeza, abandono, falta de apoio e sobrecarga. O que anteriormente poderia ser pesaroso por si só, se tornou de um silêncio insuportável. Puérperas foram recentemente incluídas no grupo de risco para o novo coronavírus e a recomendação é de isolamento absoluto. Seguimos sozinhas.

O puerpério é íntimo

O que a mulher experimenta no corpo, na psique, nos sentimentos e nas emoções é absolutamente individual. Tão íntimo e individual tal mergulho para dentro de si que a sensação de solitude se aflora. Se deposita sob a pele, se expõe nas expressões do rosto mesmo quando desejamos esconder. A falta de liberdade imposta pela pandemia exacerba a vulnerabilidade. 

A responsabilização pela vida de alguém que importa demais para a mulher é uma questão que precisa ser falada, debatida, exposta. Escancarada. Não dá mais para escondermos questões importantes como uma das fases mais vulneráveis da vida da mulher que se torna mãe da forma como a sociedade nos impõe fazer. O bebê nos convoca pelo choro. Essa é a única maneira pela qual ele consegue se expressar e esse choro desperta em nós angústias como o medo de não dar conta.

São tempos difíceis para as mulheres mães, mais difíceis que os de outrora. Porém, nosso mantra segue sendo o mesmo: vai passar.

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Doula de parto e pós-parto, nutricionista clínica especialista em Cuidados Paliativos. Transita entre o chegar e o partir desse mundo, de modo a fazer com que a humanização seja o alicerce dos processos de nascer e morrer. *Eliza é nossa autora convidada e seus textos não refletem, necessariamente, a opinião do Blog Leiturinha.