As conversas sobre socioemocional permeiam o cotidiano de pais e educadores, desde métodos como: educação afetiva e disciplina positiva, até livros e debates sobre letramento emocional, que é sobre como ensinar o seu filho a lidar com as emoções

Simultaneamente vemos que a forma de educar hoje é bem diferente da última geração, hoje temos uma relação mais horizontal com os nossos filhos, não tão autoritária como de nossos pais com nossos avós. Lidar com toda essa conjuntura gera ainda mais dúvidas, pois dificilmente, conseguiremos reproduzir com o nossos filhos a exata educação que tivemos.

Mas, como ensinar seu filho a lidar com as emoções?

Para suprir algumas dessas dúvidas, conversamos com Fernanda Marques de Souza Ingarano, psicóloga que atende pela abordagem Fenomenológica-existencial. Fernanda nos traz algumas práticas bastante interessantes para quatro dúvidas essenciais. Confira a íntegra desse bate-papo abaixo:

Por que é importante trabalhar os sentimentos do seu filho?

 O trabalho e cuidado com os sentimentos dos filhos é importante, pois a infância, como todas as fases da vida, é composta por uma paleta de inúmeros sentimentos. A criança vivenciará alegrias, angústias, tranquilidade, tristeza, raiva, etc. Um olhar atento para cada um dos variados sentimentos é fundamental.

A partir de quando podemos começar o trabalho socioemocional com os nossos pequenos?

 O trabalho socioemocional acontece inevitavelmente de maneira constante, a cada instante da vida das crianças. O modo como acolhemos a cada vez é significante. Como eu, enquanto mãe ou pai, percebo o choro do meu filho? Será fome, frio, dor? O que a(o) fez sentir raiva? Foi o que lhe fizeram, o que foi dito, já tinha acontecido algo naquele dia, antes do episódio em que sentiu raiva?

A atenção, e posterior tradução dos afetos pelos responsáveis, deve começar desde o nascimento ou do primeiro encontro com determinada criança, de maneira singular.

Compreendemos os inúmeros tons afetivos por diversos canais: pelas palavras, pelo modo que somos tocados, olhados, pelo modo de presença ou ausência, pelo tom da voz, pelas expressões corporais. Mesmo um bebê, é sensível para compreender a seu modo, o afeto das pessoas com ele. Portanto o trabalho socioemocional deve ser refletido e cuidado a cada momento, desde o início da vida com os filhos.

Como podemos ensinar os nossos filhos a lidarem com as emoções? Quais seriam as principais dicas?

Nosso tempo histórico atual é regido pela lógica da produção. Estamos constantemente vivendo sob a sensação de estarmos atrasados em relação ao trabalho, às funções cotidianas, aos exercícios físicos que deveríamos fazer. A cobrança é enorme, em nome de uma vida que deve ser produtiva, saudável, equilibrada e feliz. O filósofo coreano Byung-chul Han aborda mais profundamente esse panorama no livro “Sociedade do Cansaço”.

Com toda essa dinâmica em cena, é comum deixarmos o essencial de lado: a qualidade de tempo com os filhos. Estamos disponíveis para realmente olharmos como a criança se sente nas mais diversas situações cotidianas? A escola tem lhe deixado entusiasmada ou triste? Quais situações deixam seus filhos alegres ou entediados? Quais as brincadeiras propostas por seus filhos? Pelo quê os pequenos se interessam?

Para ensinarmos os filhos a lidarem com suas emoções, precisamos percebê-las atentamente e verdadeiramente. Para isso, é preciso tempo de qualidade. Defino como tempo de qualidade, o estar realmente presente durante o tempo despendido com a criança. Muitas vezes acreditamos que a presença significa estar perto, sendo que na verdade, é a maneira como estamos na relação que importa.

Há algo relevante de destacar. Os sentimentos nos invadem, os seja, não controlamos, ou escolhemos o que iremos sentir. Eles nos afetam de maneira involuntária. Apesar da não escolha, um olhar adulto sintonizado com os afetos das crianças, pode ajudar primeiramente a identificar, depois nomear os sentimentos com elas e posteriormente, trabalhar junto o que fazer a partir daquilo que ele sente. O que incomodou? O que pensa em fazer com isso? Quais as consequências dessa escolha?

Uma criança que identifica seus próprios sentimentos,  começa a ter espaço para receber o que se sente e escolher de uma melhor maneira o que se faz com isso que chega. Ela não necessariamente age impulsivamente pela via da destruição, por exemplo. Pode proteger-se mais.

Esse modo de relacionar-se com os filhos , é um canal para a percepção da singularidade, uma via de acesso à criança para entender o que a toca e como.

A leitura é um potente caminho de descoberta com as crianças. Através dela, elas se identificam ou não com personagens, aprendem a compreender os outros e com isso, aprendem sobre elas mesmas.

Outro ponto importante em relação ao cuidado com as emoções das crianças, é saber compartilhar dos momentos divertidos e felizes com os filhos, tanto quanto saber identificar frustrações, tristezas, raivas, pois a infância, como qualquer outro período da vida é composta por muitos sentimentos, como já dito anteriormente.

É comum alguns pais estarem pouco presentes durante a semana, ou por poucas horas no dia. Em certas situações de frustrações sofridas pelos filhos, os pais acabam obedecendo todos os desejos das crianças. As razões são muitas. Ora por sentirem-se culpados por suas próprias ausências, por acreditarem que a criança deve estar sempre feliz e realizada, por sentirem pena por determinado sofrimento ou por compreenderem que a criança é incapaz de lidar com determinada situação.

Os filhos precisam de limites e sustentar algumas de suas frustrações, sem obedecer todos os seus desejos é bastante importante (e dá trabalho).

Exemplifico com situações comuns cotidianas: querer ficar mais em uma festa, desejar comprar mais de um brinquedo ao mesmo tempo, enquanto os pais só podem comprar um, saber cair e levantar, cumprir combinados etc. Existem pais e mães que poupam seus filhos nessas situações e acabam criando pessoas que não terão recursos emocionais para lidarem com as situações difíceis na vida. O não, também é amor. Acolher nos momentos necessários, é da mesma maneira, essencial.

Quais as consequências do trabalho emocional para a vida adulta da criança?

 Na resposta anterior, exemplifiquei como o poupar as crianças de momentos difíceis da vida, protegendo em excesso,  e com isso escondendo algumas situações difíceis como separação dos pais, morte de alguém próximo etc, pode colaborar para o crescimento de alguém que terá muita dificuldade em utilizar dos próprios recursos emocionais para lidar com as situações que enfrentará na vida, não só na vida adulta, mas na própria infância e adolescência.

É importante diferenciar aqui momentos pontuais de frustrações de uma percepção constante de algum filho que está frequentemente triste, raivoso(a), e principalmente indiferente. Nesses casos, quando a família percebe que a criança está em sofrimento, em certos casos até restrita, é essencial a ajuda de uma psicóloga(o), profissional que pode identificar e compreender profundamente as questões e desdobramentos de determinados sofrimentos.

Um bom trabalho emocional com as crianças pode fazer com que se relacionem melhor com o mundo, de uma maneira mais livre,  com repertório para não serem escravos do que sentem.

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Mestranda em Psicologia da Educação, Psicopedagoga e Escritora, acredita que aprender é uma combinação entre autoconhecimento, troca e curiosidade pelo novo. É apaixonada por educação, desenhos, viagens e literatura.